Quando perdemos quem amamos: a importância de viver e encarar o luto

Chegar em junho nessa época de amor no ar, falar de perdas parece cruel. Mas afinal, quem de nós já não se deparou com a perda de alguém muito amado? Inevitáveis são os ciclos que se encerram e outros que se abrem. 

“Em nossas vidas, a mudança é inevitável. A perda é inevitável. A felicidade reside na nossa adaptabilidade, em sobreviver a tudo de ruim.” Buda

A vivência do luto

Viver esse luto nem sempre é fácil, muitas vezes não queremos abrir mão dos significados que foram construídos naquele relacionamento, seja com pais, parentes, filhos, namorados, maridos, enfim…

Encarar nossas dores mais profundas, nossas tristezas e angústias é uma travessia com muitos desafios, e que deve ser acompanhada por um profissional qualificado.

Essa travessia permeada de amor, saudade, mágoas, desilusões, e que por mais sofrida que seja podemos sair enriquecidos com o aprendizado da caminhada.

Eu conversava outro dia com uma amiga psicanalista sobre o quão desafiador é ajudarmos nossos pacientes a percorrer esse processo, de lidar com as frustrações das relações, das perdas definitivas de um ente querido, do quanto podemos ajudar a entender os significados, a acomodá-los internamente e seguir em frente apesar de tudo que ocorre.

Falar de morte ainda é uma dificuldade em nossa sociedade, às vezes me parece que o luto é proibido, todos têm que dar a volta por cima logo, “esquece esse cara ou essa mulher ou esse crush, dá um tempo para você mesma(o)”.

Só quem sabe a dor é quem está vivendo, o quanto é difícil passar por tudo isso. Cada um tem seu tempo para lidar com isso, algumas pessoas vão pedir ajuda, vão elaborar, outras não vão nunca. 

Encarando o luto

Há que se incluir a morte na vida apesar da dor, a vida dói .” – Lacan

Não é vergonha deixar a dor aparecer, muito pelo contrário é luto vivido, doído na alma. Senta, chora, grita, xinga, se emputece, toma um porre, enche o saco dos amigos, mas fala do quanto dói, encara! 

É muito bom ter “amigos pacientes” nessa hora. Sabe por quê? Porque você tem todo o direito de ser feliz novamente, nunca é tarde para voltar a acreditar que é possível sim superarmos a dor, a ferida sangra, a gente vai tratando, com o tempo ela cicatriza e você poderá ver o quanto foi capaz de aprender e ser grato por ter passado por tudo aquilo.

Não passaremos pela trajetória da vida sem dor, seja sofrendo pela perda de um amor, de um ente querido que se foi, seja pelas tragédias, seja pelo simples esquecimento de nossa vulnerabilidade, de nossa fragilidade. No entanto, não é o que nos acontece aquilo que nos marca, mas o que podemos fazer a partir de nossas dores.

É preciso deixar ir, é preciso saber perder, é preciso deixar-se perder para então apropriar-se do que resta. O luto é um bom negócio, podemos nos enriquecer, porque faz parte de nós, renovamos nossos relações afetivos e sociais.

O luto se faz no seu tempo

Não apresse o rio pois ele corre sozinho. Luto é assim, ele se faz no seu próprio tempo. Podemos, enquanto isso, ir cantando com Gilberto Gil: “tempo rei, ó, tempo rei!”

Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos
Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva e pelo eterno vento
Água mole
Pedra dura
Tanto bate que não restará nem pensamento

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

Pensamento
Mesmo o fundamento singular do ser humano
De um momento
Para o outro
Poderá não mais fundar nem gregos nem baianos
Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como…

Ana Borges CLAUDIA GONCALVES BORGES

Atuo na área clínica com abordagem psicanalítica a adolescentes e a adultos. Na área organizacional, possuo experiencia em todos os seguimentos na área de recursos humanos.
Ana Borges CLAUDIA GONCALVES BORGES

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