gestão de conflito

Ausência de perspectiva de vida e controle emocional. Quando a gestão de conflito falha.

Quando pensamos em gestão de conflito interno, estamos remetendo a capacidade do indivíduo conseguir entrar em contato com seu medo, agressividade, amor, e canalizar de forma diretiva o seu objetivo, como por exemplo construir seu projeto de vida.

Todavia, esse enfrentamento dependerá da capacidade de cada um organizar-se internamente na consolidação de diversas emoções antagônicas.

Perceber o que te faz feliz e assumir a responsabilidade em cuidar de si mesmo com afeto e respeito, buscar projetos éticos nas ações ainda que envolvam objetivos individuais, respeitar o ambiente e se relacionar de forma honesta podem representar uma grande batalha para muitos.

Gerenciar conflitos pessoais requer que tenhamos protótipos internos bondosos que respeitam a singularidade e promovem o crescimento.

Protótipo este, formado nas primeiras relações com a(s) pessoa(s) que cuida(am), construídos de forma não racional ou mesmo objetiva.

Descrevemos dessa forma pois não é muito consciente as metodologias de educação familiar, ou mesmo os pressuposto de cada personagem na manutenção dos ideais de cada família.

Muitas vezes temos a tendência de repetir nossos traumas na relação com quem vivemos ou cuidamos. Essa repetição ocorre muitas vezes de forma inconsciente e leva-nos a sermos muitas vezes aquilo que não gostamos na educação herdada  desde a vida infantil.

Neste universo de educação prática, baseada na “psicologia popular” também   influenciada pelas leis que regem nossa sociedade, não é incomum encontrar com pais que querem se reinventar em uma nova sociedade com preceitos diferentes daqueles que foram criados, e que hoje percebem que podem ter outras possibilidades de lidar com a individualidade do filho sem usar, por exemplo, da violência física e de outros tantos tipos de violências comuns dentro de um pensamento educativo.

Também, é comum encontrar filhos com sequelas desestabilizantes na gestão interna de seus conflitos, devido a uma educação pouco provedora de envolvimento afetivo, afirmação de singularidades e talentos.

Gestão de conflito e vida adulta.

Nesse caminho, rumo à vida adulta, quando se começa a compreender o mundo, formamos alguma crítica sobre a educação que recebemos, deparamo-nos com conflito geracional entre aqueles que nasceram antes de 1990 e os que nasceram depois.

Geralmente, um deles exerce o papel social de pais e educa o outro, e ambos irão de certa forma, tornar-se coadjuvantes em um processo de construção e desconstrução de idealizações familiares.

Compreender como tais princípios marcaram a gestão de conflitos de pais e filhos pode propiciar luz aos momentos de total apatia, descontrole, desilusão com  o mundo interno e incapacidade de gerenciar a vida afetiva.

Percebemos com frequência pessoas sem qualquer direcionamento de vida, ou controle sobre suas próprias emoções.

Esse descontrole pode ser aqui compreendido, entre outras possibilidades, como um sintoma desse conflito geracional, marcado por uma ausência  de direcionamento na educação de crianças e adolescentes.

No momento atual, o modelo de educação pautado na violência e na ausência de diálogo, passa a fazer parte do cotidiano das famílias, mesmo que de forma subliminar, ou inconsciente.

Aqui revela uma nova forma de pensar o desenvolvimento e educação.

Impacto das leis na educação de criança e adolescente antes e após 90. Implicações na compreensão da personalidade.

Atualmente muito se fala de um modelo de educação focada na garantia de direito na educação de crianças e adolescente, mas como que tais situações podem ter impactado diretamente no comportamento entre crianças e adolescente na gestão de seus conflitos internos?

Como as gerações anteriores assumiam suas emoções e projetos pessoais? Como ser sujeito de sua própria história?

A Família Possível, um protótipo de gerenciamento afetivo.

Compreender como construímos nossos valores muitas vezes parecem desassociados de um contexto social, como se cada um pudesse ser exclusivamente responsável pela sua construção interna de forma individualizada.

É importante compreendermos que os valores são firmados dentro de uma família, e que esta por sua vez transmite valores de uma sociedade. Não de maneira passiva por cada pessoa, pois, atribuímos também sentimentos às situações que vivenciamos.

Gomes (1990) a família tem especificidades que a distinguem de qualquer outra instituição e nela se defrontam e se compõem as forças da subjetividade e do social.

Também é responsável pela transmissão dos valores sociais e costumes daquele grupo, e seus membros irão introjetar tais valores segundo sua singularidade e organização interna. Szymanski (2002, p. 37).

Muitas vezes somos deslocados de nossa história familiar, do lugar onde nascemos, das experiências iniciais da nossa trajetória. Dentro de uma perspectiva social que sugere que todos temos as mesmas possibilidades de sucesso ou felicidade, e ainda, que fomos criados dentro de uma  família que supostamente ofertou segurança emocional e possibilidades de desenvolvimento saudável.

E, nesse momento, o deslocamento subjetivo e social ocorre, podendo nos confundirmos, levando-nos a acreditar nessa premissa de uma  família Ideal, e que todas as histórias são parecidas e dentro da mesma possibilidade de alcance de sucesso de vida, sucesso este de ordem emocional e financeira.

Quando se acredita nisso, pode-se sentir ansioso ou fazer uma avaliação infeliz sobre seus resultados, por um presente que deveria ser prático e realizador sem tantas frustrações.

Muitos ainda carregam marcas de uma educação repressiva ou violenta, com receios de falar a respeito, ou ainda, buscar ajuda de um especialista, o que pode levar a uma incapacidade na liderança emocional, uma vez que se tornar refém das emoções geradas por esses pensamentos e lembranças.

Alguns esclarecimentos desse ponto de vista podem ser importante, como compreender que a partir dos anos 90 mudou-se o conceito de educar e punir dentro da nossa sociedade, repercutindo em impactos na subjetividade daqueles que educaram ou foram educados nesse período, contribuindo assim na personalidade e na forma de cada um lidar com seu conflito. O Estatuto da criança e adolescente teve importante influência na educação dessa geração.

O que é o ECA. O olhar da criança e adolescente sobre suas emoções a partir da criação do Estatuto.

Quando falamos do ECA, Estatuto da criança e do adolescente, criado em 13 de julho de 1990, torna-se inevitável comparar o impacto que essa lei trouxe na forma de se pensar educação de crianças e adolescentes.

Deve-se destacar que o estatuto foi elaborado dentro de uma perspectiva de educação, psicologia do desenvolvimento e controle social. No artigo 3° traz importantes reflexões sobre tais direitos com foco nos pilares de sua construção, ou seja, psicologia, educação e direito.

“ART. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando sê-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade.”

Devemos entender que o Estatuto da Criança e do Adolescente, vem substituir o código de menores que tinha uma concepção bem diferente de educar crianças e adolescentes em situação de práticas delituosas.

Em 1990 que a lei passou a classificar as pessoas com menos de dezoito anos em “crianças” (com idade de zero a doze anos incompletos) e “adolescentes” (a partir dos doze anos completos, até se completarem os dezoito anos).

Antes desse período criança e adolescente não eram compreendidos como sujeito de direito, ou seja, como pessoa em desenvolvimento que tem deveres mas também direitos, ficando nesse período submissas à autoridade, castigo e violência física dos genitores.

Muitas famílias ainda se deparam com tais transformações e estão em processo de assimilação, de pensar a criança e adolescente como pessoas que podem ter um pensamento sobre religião, sexualidade entre tantos outros temas diferentes dos seus cuidadores, sendo uma inovação histórica, compreender que tais opiniões devem ser respeitadas.

Em outro momento encarar tal possibilidade também pode trazer aos cuidadores (pais) um desconforto em ter que lidar com tais posicionamentos, respeitando a individualidade, sendo este o primeiro momento em nossa história que começamos a buscar agir dessa forma.

Marcas de uma educação violenta e desajuste emocional.

É inevitável reconhecer que de alguma forma em nosso inconsciente coletivo, passamos de alguma forma por algum tipo de violência física ou emocional com ausência de fortalecimento da singularidade e/ou educação afetiva. Esse caminho tem origem na própria história social de infância.

Devemos destacar que esse lugar social da criança e adolescente nem sempre foi descrito e conhecido como temos hoje. Na história da infância o que existia eram dois grupos, as crianças filhos de escravos, ou bastardos, e, os filhos dos ricos. Aqui fica determinado pela condição financeira quem brincaria e quem trabalharia.

Nesse sentido a percepção da importância do brincar e de valorizar a produção individual da pessoa desde sua infância de forma objetiva apresenta-se como muito recente, o Estatuto da Criança e Adolescente tem 28 anos, o que trouxe importantes diretrizes sobre a educação da criança.

Também é importante reconhecer que a atuação da Psicologia no Brasil, tem 56 anos, o que nos leva a reflexão que muito do que sabemos hoje sobre desenvolvimento emocional, do ponto de vista prático e social, estamos assimilando tais conteúdos, alguns já aceitaram uma nova postura diante do desenvolvimento, outros ainda se assustam com tais pressupostos.

O importante nesse olhar para dentro é buscar dar um novo significado a algumas experiências e construir pontes entre o passado, presente e futuro. lembrando sempre que haverá alguém mais experiente que nós que poderá nos conduzir neste caminho.

Referencia.

BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente, Câmera dos Deputados, Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990. DOU de 16/07/1990 – ECA. Brasília, DF.

Gomes, J. V. (1990) Socialização: um problema de mediação. Psicologia-USP, 1(1) 57-65.

SZYMANSKI, Heloísa. A relação família/escola: desafios e perspectivas. 2. ed. Brasília: Plano, 2007.

 

Ana Roque

Sou psicologa clínica, atendendo várias faixas etárias à mais de 10 anos. Minha orientação de trabalho é psicanalítica Melanie Klein.
Ana Roque

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