Saúde mental e criminalidade – o mal do estigma

Na última semana, duas tragédias chamaram a atenção dos noticiários nacionais: em São Paulo, um ex-marido inconformado ronda o prédio onde vive a ex-companheira, fica à espreita no corredor de seu apartamento durante duas horas, até que, finalmente, consegue invadir a residência e a mata, com quatro tiros.

Em Goiânia, um engenheiro civil, ao enfrentar grave discordância referente à posição política de seu filho, o persegue e mata, e depois se suicida.

O que há em comum nesses dois casos? Em ambos, em algum momento questionou-se a sanidade mental dos autores dos atos violentos. O assassino da ex-esposa, inclusive, que estava foragido, foi encontrado pela polícia internado em clínica psiquiátrica.

E esse assunto, apesar de pesado, nos traz reflexões importantes:

Outros questionamentos que deveriam ter sido feitos, como o fato de essas vítimas serem vítimas do machismo e da intolerância, respectivamente, entre outros fatores, ficaram nublados diante da possibilidade de os autores “não estarem em seu juízo perfeito”. Durante muito tempo, associou-se  “anormalidade” à criminalidade, e esse estigma ainda ronda o imaginário popular até os dias de hoje. Em meu cotidiano, recebo várias famílias que definem o paciente portador de transtorno mental como “perigoso”, “um risco à sociedade”. Muitas vezes o trabalho de sensibilização dessas famílias é quase tão ou mais difícil que o trabalho com o próprio paciente.

Longe de querer problematizar a condição mental desses dois indivíduos, quando se dá o destaque ao quadro mental de um autor de ato violento em detrimento de todos os outros fatores que levaram aos fatos, reforça-se o estigma de que o “louco” é necessariamente perigoso. E a busca por ajuda, que já é comumente tão difícil para uma pessoa que sofre com os mais diversos quadros – ansiedade, angústia, depressão, fobias, pânico, esquizofrenia, entre tantos outros – torna-se algo ainda mais penoso.

A última coisa que um portador de transtorno mental precisa é de um rótulo. O tratamento – psicoterapêutico e eventualmente até mesmo psiquiátrico – é fundamental para garantir o protagonismo do paciente em relação à sua própria vida. Mas, para isso, é necessária a aceitação do quadro, livre de preconceitos.

 

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Bruna Paschoalini

Bruna Paschoalini

Sou psicóloga formada pela UNESP/Assis (2007) e Especialista em Atendimento Familiar. Atuo com Psicoterapia Breve de adolescentes, adultos, idosos, casais e famílias, além de realização de orientação de pais.
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Bruna Paschoalini

Sou psicóloga formada pela UNESP/Assis (2007) e Especialista em Atendimento Familiar. Atuo com Psicoterapia Breve de adolescentes, adultos, idosos, casais e famílias, além de realização de orientação de pais.

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